quarta-feira, 1 de abril de 2020

MANIFESTO DOS PEIXES: #DIREITOSDANATUREZA


Reflexão em tempo de reclusão

OS PEIXES SENTEM!
MANIFESTO DOS PEIXES PELA VIDA !



Lá pras bandas da Amazônia, chegou um aviso pelas águas. 

A peixarada logo se deu conta de que dizia respeito a eles...

As águas estavam turvas, brancas como se diz no período da chuvarada, quando ela fica carregada de sedimentos, lama, diferente do verão, quando fica clara, com tom esverdeado ou preto...

Era sinal de que algo de errado estava acontecendo...

O cardume de branquinhas subindo lá pelas bandas de Calama logo avistou as alterações e procurou os tucunarés e demais peixes no lago do Acará pra conversar.

Dona Branquinha, cansada, que tinha acabado de chegar do rio Machado foi logo tomando a palavra:
-Tô vindo de muito longe, lá das cabeceiras do rio Machado. Passei por cidades grandes e pequenas, terras indígenas, áreas de preservação, reserva extrativista, assentamentos rurais, enfrentei cachoeiras e por isso cansei. Em viagem parei na região do tal Machadinho, onde já derrubaram quase todas as árvores, fizeram pastagens e tem muito boi, agora entrou a tal da soja e pouca gente nas moradias. A maioria das moradias estão vazias. Antes por lá tinha muita gente. Mas ouvi dizer que era pela tal da concentração fundiária. Vi grandes extensões de terra tombada. O que era de baixo veio pra cima e de cima foi pra baixo, tudo feito com grandes máquinas. Depois alisavam a terra com maquinas menores e outras maquinas diferentes jogavam sementes e daí nasceu a tal da soja. Parece um lago de calmaria, tudo verdinho... Cheguei a me assustar quando passou um pássaro gigante dando um banho de veneno na soja! Foi também nesta região que vi igarapés cheios de terra, sem vida, assoreados... Não tem mais peixe nestes igarapés, porque a chuva aplicada pelo pássaro na lavoura de soja, ao ser levado pelas águas das chuvas foram contaminando as águas e os peixes morrendo tudinho.

Dona Pacú-Açú que escutava pediu um aparte e perguntou:
-Dona Branquinha eu sei que a senhora é muito rápido na sua viagem, mas queria saber se a senhora passou por uma vila de pescadores chamada Tabajara¿

-Claro que sim dona Pacú-Açú e fiquei muito preocupada. Vi pescadores tristes. O lamento era um só “não temos mais peixe como antigamente, parece que tão sumindo, que o veneno está matando e ainda querem fazer a barragem aqui em Tabajara”... Ai eu fiquei preocupada com este desabafo do pescador e quis logo entender o que era essa tal de barragem. Então, me pus a escutar os pescadores mais velhos, que sentados na proa da canoa enquanto lançavam suas linhadas pra tentar pescar algum parente nosso diziam: “a barragem vem ai e vão tirar nóis daqui para dar lugar ao progresso. Isso aqui tudo vai virar um mar d´água. Vão fazer igual no rio Madeira. Vão colocar barreira de cimento no rio, trancar tudo lá pra cima, represar como eles falam, pra poder fazer hidrelétrica, para gerar energia elétrica pra alumiar o Brasil. Com isso, nóis temos que sair daqui pra ajudar o Brasil ter mais energia elétrica. Mas, também tô sabendo que o pessoal que mora lá por São Carlos, Nazaré e Calama, só tem energia de motor gerador, mesmo tendo duas grandes hidrelétricas em Porto Velho e que tiraram muita gente da beira do rio pra construírem elas e tem gente que até hoje não recebeu seus direitos”. Pois é, foi isso que eu ouvi e fiquei muito preocupada e já estava de saída quando outro pescador ainda disse mais: “tô sabendo que os pescadores de Santo Antonio, Teotônio, Jaci, Mutum, na Bolívia e região de Guajará Mirim não tem mais direito de pescar no rio Madeira e que mais de 80% dos peixes desapareceram, ou seja, morreram com a construção das barragens e como é que os peixes vão subir o rio com isso no meio do caminho deles... Não tem mais reprodução dos peixes e com isso os pescadores foram enganados com algumas compensações e nada mais. Tá todo mundo urrando sem peixe, sem rio, sem comida e com dívidas pra pagar”.

Dona Curimba balança o rabo e entra na conversa:
-Então quer dizer que nossos parentes peixes grandes e pequenos foram mortos pelos construtores dessa tal barragem e por isso os pescadores da região de Calama tão batendo direto atrás de nós para mandar pro povo deles de Porto Velho¿ Eles exterminaram com nossos parentes e ainda sobra pra nós aqui no baixo Madeira¿

Dona Branquinha tentando ajudar o grupo a entender continuou:
-É, pelo que entendi é isso mesmo, porque até escutei os seringueiros dizerem que o tal do governo deles até “trocou terra de preservação lá pras bandas de União Bandeirantes pra poder inundar na região da serra dos Três Irmãos na beira do Madeira e que na região de Tabajara o governo já diminuiu o Parque Campos Amazônicos para que a Usina de Tabajara seja construída e inunde parte dessa região, onde também tem indígenas sem contato”. Isso quer dizer peixarada, que nóis temos que juntar mais peixe nesta caldeirada de resistência e vamos fazer um banzeiro antes que seja tarde.

O Mandi, com seu esporão pontiagudo pede licença pra usar a palavra:
-Eu estou escutando vocês e estou muito preocupado. Meu povo que vive nas beiras dos barrancos desses rios estamos sofrendo uma perseguição muito grande. Antes quando tinha maior quantidade e diversidade de peixes, os tais humanos tinham esquecido de nós e poucos se interessavam pelo nosso corpo em seus pratos, mas agora, nos tratam até com discriminação enquanto nos comem: “ixi, só tem mandi; mandi di novo; não tem outra coisa; o jeito é comer mandi”... Isso está nos ofendendo, porque além de alimentar esses buchudos do beiradão, ainda sofremos tal do buli e todo dia estão lá no barranco nos pescando só porque gostamos de comer barro nas plantas e outras cositas más que jogam no rio... comemos o que tem, já que nossa vida não tá fácil não pra se alimentar! Pra sobreviver temos que esporar os desavisados pra tentar escapar de suas mãos e evitar de ir pra panelas desses humanos.

O Peixe cachorro fica esperando o Mandi terminar e já emenda:
-Já a minha parentada, que antes era pouca visada pelos pescadores, agora não escapa um; todos vão pra panelas deles, pra grelha onde nos assam e se deliciam mesmo reclamando que temos bastante espinho, coisa e tal... não tem jeito, eles não nos deixam em paz... todo dia tem pescador nos lagos, igarapés e igapós com linhadas, caniços e malhadeiras, mesmo no período da piracema, quando dizem que é proibido nos pescar, mas nada, eles não respeitam e nem pensam nos seus filhos e netos... quero ver como vai ser pra essas pessoas quando nós resolvermos fugir pra longe deles, se é que exista algum lugar onde possamos ir e viver livres deste medo de todo dia.

O Tucunaré-açu, idoso, que de longe escutava a conversa chega bem perto e pede a palavra:
-Óia meus parentezinhos, eu que já vivi muita coisa, já escapei de tantas armadilhas da vida, posso dizer que tá cada vez mais perigoso pra nós viver nestes rios da Amazonia. Por um lado tem as tais pescarias de pegue-e-solte, que traz os ricos de vários países para nos pescar, rasgar nossa boca, tirar fotos e nos soltar machucados, como se fôssemos descartáveis, como se não sentíssemos dor. Aí quando menos se espera lá colocam barreira de cimento em nosso caminho e não podemos mais subir com nossas fêmeas para lugares seguros pra desova. Eu vi lá em Santo Antonio do Madeira, onde fizeram tal da barragem, que deixaram um canal pra subida dos peixes, mas aquilo é um crime, a gente tenta subir e cansa e volta se batendo, se cortando, se machucando e não consegue. Antes não, quando não tinha barragem nós tínhamos o caminho entre as pedras por onde nadávamos, parávamos, descansávamos e seguíamos nossa migração. Agora isso não ocorre mais. Ficamos prisioneiros no rio e tivemos que buscar saídas pra reprodução nos lagos menores e todos cercados por humanos que não deixam nossos filhotes crescerem e já os pegam e com isso estamos diminuindo e vamos desaparecer... Todos os humanos falam que caldeirada boa é de Tucunaré, mas ninguém quer ficar sem comer pra deixar a gente se reproduzir...isso é um crime contra nosso direito de ser peixe e direito de reprodução pra alimentar eles próprios...Isso me deixa muito indignado!

O Surubim, peixe liso, também conhecido por Cachara vem lisamente entrando na conversa:
-Meu povo gosta mesmo é de viver nos lagos, livres e em águas calmas. Mas isso já não é mais possível nestes tempos. As águas estão agitadas, pesadas, barrentas. Parece que quem manda na vida do rio agora são os tais humanos, porque mesmo sem chuva as águas sobem e baixam de repente. Não é mais as forças da natureza que conduz nossa vida, mas sim os humanos. Diante disso, nossa vida tá confusa, porque as frutas não temos mais desde a grande inundação de 2014, quando a maioria morreu. Depois veio as queimadas que chegaram matando a vida até na beira dos rios. Agora pra completar querem estes tais humanos construir mais uma barragem no nosso rio Machado ¿ Onde isso vai parar e nossos direitos como peixes que tem vida, que alimenta os tais humanos, ou será que não nos consideram seres vivos¿ será que eles não sabem que nós fazemos parte da mesma cadeia alimentar da qual eles também fazem parte, ou seja, nossos direitos de existir é o que sustenta o direito deles, ou estou errado¿ Eu penso que devemos convidar mais peixes pra nossa reunião e fazer um Manifesto de nossos direitos.

Dona Branquinha que coordenava a reunião concordou e pediu a sua filha que fosse chamar dona Pirarara, considerada a maior do rio Madeira em tamanho e única que coloca medo nos pescadores.

Dona Pirarara chega com toda sua opulência, entra na roda e como já foi informada do assunto pela filha de dona Branquinha foi se expressando:
-Eu agradeço por terem me chamado, porque também estou preocupada com minha família com esta situação. Os pescadores antes dessas barragens no rio Madeira, só pescavam meus parentes acima de um metro de cumprimento, mas agora, com a dizimação que promoveram contra nossa comunidade, estão pegando e levando pra suas casas qualquer tamanho. Esta semana mesmo meu filhote menor de cinquenta centímetros foi fisgado e levado, antes mesmo da liberação do período da piracema. Nós não temos mais paz e muito menos respeito com nosso direito à reprodução, crescimento e vivencia. Ainda querem construir mais hidrelétrica no rio Machado¿ Isso é crime contra nossa vida e dos indígenas que vivem nesta região, pois tem os Tenharim, Diahoy, Arara, Gavião e os indígenas sem contatos que também tem direito ao rio livre e pelo que sei, se fazerem barragem em Tabajara vão alagar parte da terra onde vive estes isolados... até escutei os Kawahiwa falando que eles tem direito de serem consultados diante desta ameaça e ai me perguntei e NÓS não vão nos consultar também¿ Não vão consultar a floresta que vai ser exterminada, alagada¿ Será que nossa vida tem menos valor que a das pessoas¿ Elas não depende de nós e da floresta pra se alimentar¿ Como querem nos destruir sem respeitar nossos direitos¿ Não, isso não tá certo, temos que construir nosso Manifesto é agora. Quem vai anotar nossas ideias¿

Dona Branquinha, toda organizada, colocou a cabeça pra fora e chamou dona Garça, que de pernas compridas comia algumas algas ali perto e ao saber do assunto se coloca para ajudar, mas muito sem saber o que fazer pergunta o que querem que ela faça, o que de pronto dona Branquinha lhe orienta:

-Dona Garça precisamos que escute nossas palavras e as leve até os homens que estão fazendo o projeto da hidrelétrica de Tabajara lá em Brasília. Sabemos que é longe, mas pode ir parando pra descansar, sem portanto perder cada palavra nossa. Dona Garça de pronto levanta pra escutar cada palavra que toda Branquinha foi ditando com base nas falas de cada um dos participantes deste Manifesto, que assim foi criando corpo:

“Fica decretado que nós, os peixes dos rios: Machado, Preto, Madeira, Mamoré, Guaporé, Aripuanã, Marmelos, Teles Pires, Tapajós, Xingú, Abunã, Madre Dioz, Beni e entre outros, somos portadores de direitos.

Temos direito à Vida para manter a vida de vocês, pois se alimentam de nossos corpos. Mas, para que nossos corpos alimentem a vida de vocês, precisamos primeiro ter condições de nos alimentar, crescer e reproduzir com segurança. Do contrário tanto nós como vocês perderemos.

Sabemos que fazemos parte da cadeia alimentar da qual vocês humanos também fazem parte. Entretanto, assim como vocês, nós temos direito a viver nosso tempo de vida necessário para garantir nossas atuais e futuras gerações.

Fica decretado que nenhum peixe é menor em tamanho ou valor que o outro. Todos temos importância por igual. Abaixo toda forma de depreciação, seja por tamanho ou característica, pois lhes servimos na hora e na situação em que se encontram. Dessa forma, todos temos valor por igual.

Fica decretado que nossos rios tem que viver livres de barragens para que a vida possa ser plena. Cada rio barrado é causador de morte não por vontade própria, mas, pelas consequências das más intervenções. Nenhuma barragem mais em rios da Amazônia, Sim a Vida!

Fica decretado que nossos corpos são portadores de experiências e vivencias seculares nesses rios da Amazônia. Temos histórias próprias de cada espécie e modos de vida específicas, que por isso, só com rios vivos poderemos viver nossas especificidades.

Fica decretado que as águas que nos alimentam e nos conduzem a vida "são águas sagradas".

Fica decretado que NÓS os PEIXES, os RIOS e as FLORESTAS, aliadas aos povos e comunidades tradicionais, somos imprescindíveis para o equilíbrio da vida no planeta Terra.

Fica decretado que a Vida é o bem maior”

Ao concluir a narrativa todos os peixes deram saltos, mergulhos e bateram as nadadeiras, quando ia passando por ali o Boto Tucuxi, que ao se aproximar todos se juntaram com medo, mas ele que havia escutado boa parte da narrativa, foi logo dizendo:

-Não tenham medo, eu estou com vocês também nessa. Todos nós estamos sofrendo com as mazelas dos tais humanos. Vamos somar nossos esforços para que não se construa mais nenhuma barragem nos rios da Amazônia.

Novamente foi a maior festa, fizeram nados sincronizados comemorando esta união dos peixes.
Dona Garça, que escutou tudo e se emocionou com a narrativa e responsabilidade de levar a mensagem aos humanos, pediu a palavra:

-Peço licença para dirigir a palavra ao cardume, pois nunca me senti tão útil como agora. Vou fazer de tudo para corresponder com a missão dada e farei de tudo para cumpri-la. Ainda hoje começarei meu voo de mensageira. Vou passar por Porto Velho, no Ministério Público Federal e na Eletronorte deixarei a mensagem de vocês. De lá seguirei direto para Brasília, onde falarei para o Executivo, Legislativo e Judiciário. Falarei também para os ambientalistas, para os meios de comunicação social, para as comunidades religiosas, acadêmicas, enfim, pra todo mundo, porque até agora eu só tinha ouvido falar de “direitos humanos”, mas, é a primeira vez que escuto falar dos “direitos da natureza”, a começar pelos peixes. Isso é fantástico e ao mesmo tempo difícil de se fazer ouvir. Mas, eu uma simples Garça branca da Amazônia, da boca do rio Preto com o rio Machado, desaguando no rio Madeira, iniciarei meu voo em favor da vida não só de vocês, mas da minha também.

E assim partiu dona Garça voando nesta missão possível, em defesa dos Direitos da Natureza!

Iremar Antonio Ferreira – templo de reclusão – Porto Velho, 01 de abril de 2020.

terça-feira, 24 de março de 2020

PORQUE TEMOS MEDO DA MORTE NO SÉCULO XXI ? #históriadaamazonia

"QUEM TEM MEDO DA MORTE NÃO NASCE E NEM VINGA..."


Em tempo de pandemia, quer dizer, em tempo de coronavírus, COVID-19, em tempo de reclusão, as reflexões nos saltam às memórias de leituras e vivências ao longo deste anos junto e com os povos indígenas na Amazônia brasileira, que me induz a escrever algo.

Me recordo que lendo algo sobre os indígenas Nambikquara ou Nambikwara, quando da passagem da Rodovia Marechal Rondon, atualmente conhecida por BR 364, de maneira forçada ainda na década de 70, toda de terra em cima do territória desta grande Nação indígena, que aos poucos foram sendo divididos, entre grupos do cerrado e grupos do vale...abriram um corredor da morte!

Podemos chamar de corredor da morte porque os Nambikquara assim definiram que esta abertura da Rodovia BR 364 significou "uma grande noite na vida deste povo". É preciso compreender a lógica governamental da época para compreender as consequências e qual a conexão que faço com o coronavírus.

Década de 70, regime militar, a ordem era "levar homens sem terra, para terra sem homens" e ocupar "um vazio demográfico", estratégias de Golbery do Couto e Silva (http://latinoamericana.wiki.br/verbetes/c/couto-e-silva-golbery-do) e companhia. Para eles os povos nativos não eram nada, portanto poderiam ser remanejados de qualquer forma para atender aos interesses da Nação. Não fazia sentido violar este direito imemoriável dos Nambikquara, bastava seguir com o traçado da rodovia no sentido que ela vinha de Campo Novo, Sapezal e seguir em linha reta para Vilhena (seguindo a linha telegráfica) que, era a meta a ser alcançada, para depois rumar para Porto Velho e futuramente Rio Branco no Acre.

Contudo, a geopolítica da época já visava expandir os campos de produção de grãos na região onde os indígenas habitavam. Já tinham conhecimento dos vastos campos ai existentes pelas inúmeras expedições feitas, entre elas as do etnográfico Curt Nimuendajú e Levy Strauss.

A "grande noite" chegou no século XX e quase que dizimou o "povo das cinzas" (https://noticiastudoaqui.com/artigo/2018Ju27jN225b33a992). Não foi pelo rifle dos invasores não, nem por açúcar envenenado ou até mesmo arsênio, como no caso dos Cinta Larga, cujo etnocídio entrou para a História como Massacre do Paralelo 11 (https://terrasindigenas.org.br/noticia/17879), na região noroeste do Mato Grosso, às margens do rio Juruena. No caso dos Nambikquara as doenças se encarregaram de promover este quase genocídio, com a ajuda da estratégia militar de remover povos de um lugar para outro, com a promessa de tratamento de saúde após os contaminar, distanciando famílias. Algumas não aceitaram a remoção forçada para o Vale do Guaporé e fugiram para o cerrado e floresta alta, pra terra firme. Aos doentes e convalescidos sobrou as áreas de alagadiços no vale, deixando dessa forma, uma grande área que brevemente seria ocupada por empresas de regularização fundiária que, em nome do governo da época, vendiam estas terras para grandes investidores, com a promessa de que a BR 364 seria asfaltada e o lucro seria certo.

No início dos anos 80, com recursos do Banco Mundial, via projeto Polonoroeste é dado início ao processo de asfaltamento da BR 364, estendendo a grande noite dos Nambikquara. Agora, de forma acelerada veem a floresta ser cortada em vasta extensão. Veem nos anos 90 a agropecuária tomar conta e logo as grandes extensões de lavouras de soja.

No final dos anos 90 as consequências desta grande noite é sentida com grande intensidade. Os sobreviventes com muita luta, tiveram alguns direitos garantidos, entre eles o atendimento à saúde, o que permitiu que voltassem a crescer demograficamente, embora com território limitado e sem garantias contra os invasores que, de forma estratégica, ano pós ano foram empurrando os limites e deixando ainda mais pequena as terras demarcadas. Agora o vírus que assola é o agrotóxico. Esse mata à distância. Mata o peixe dos rios, as caças, os pássaros, contamina as fontes de água e as pessoas expostas às nuvens de venenos (https://portal.fiocruz.br/video-nuvens-de-veneno ).

Como se não bastasse tudo isso, os Nambikquara agora enfrentam mais um grande desafio o tal do Coronavírus que, assola todo o planeta, deixando um rastro de morte e destruição de famílias, culturas e economias. Será a extensão da grande noite em pleno Século XXI, quando a tecnologia domina corações e mentes, chegando até nas aldeias deste povo, com cujos celulares acompanham notícias de que a morte vem pelo vírus que tem nome e sobrenome.

Mas, ao mesmo tempo se veem envoltos na grande noite novamente porque as políticas públicas de saúde estão longe de atender ao surto nas cidades e imagina nas aldeias longínquas, de difícil acesso e o que pior, fora do eixo de prioridade governamental na atualidade, cuja liderança máxima defende acabar com as terras indígenas, o que por tabela entra os moradores destas, ou seja, prega e pratica o etnocídio por sucatear e tentar extinguir ações de saúde e proteção fundiária.

Assim como os Nambikquara, todos os povos indígenas brasileiros com terra ou sem terra demarcada, lutam como se fosse a última luta de suas vidas para evitar que esta pandemia chegue até as aldeias, o que representaria dizimação total e realização de um sonho do atual governo. Frente a isso, distribuindo coragem aos não indígenas, povos de todo o Brasil se unem contra o coronarovírus e o Covid-19 e afirmam que "quem tem medo de morrer não devia ter nascido". São mais de 520 anos de resistência e não é agora que vão nos vencer.

Com muita responsabilidade os movimentos organizados indígenas, suspenderam por questão de segurança física e cultural, diante do avanço da pandemia do vírus da morte do capital, as manifestações de rua contra o desgoverno atual. E, de forma coerente em defesa da vida de cada pessoa em primeiro lugar, conclamam que todos fiquem em suas aldeias e que não deixem estranhos entrar, para vencer os vírus que atentam contra o direito básico fundamental - a Vida.

Todo nosso apoio e solidariedade com cada parente e parenta na luta pela Vida...


Iremar Antonio Ferreira - 25 de março de 2020

REFLEXÕES TEATRALIZADA EM TEMPOS DE RECLUSÃO #Amazonia



Reflexões teatralizada em tempos de reclusão

ALERTA GERAL NA AMAZONIA...
TEM VÍRUS VINDO AI...
OS ANIMAIS ESTÃO EM SINTONIA...

Na Amazônia, maior floresta tropical do planeta chegou uma notícia de que um vírus mortal está se espalhando pelo mundo. Os animais foram os primeiros a se reunir para discutir o assunto, pois todos queriam saber sobre o tal vírus e o que estava acontecendo por onde ele está passando.

Bem-te-vi, pássaro atento ao movimento da cidade de Manaus foi logo se adiantando:
-Bem que eu vi um monte de gente de branco, com pano branco na boca se movimentando pela cidade bem longe daqui. Eles diziam que era pandemia que estava chegando. Eu não entendi direito o que era pandemia, mas sei que falaram num tal vírus que veio das conchunchina. Falaram que foi um morcego que transmitiu o tal vírus pra quem comeu ele...

Seu morcego com asas abertas de cabeça pra baixo no galho entrou na conversa:
-Péra ai, que história é essa! Nessa tal conchunchina eles comem morcegos..éguáaa, e que ainda foi meu parente que transmitiu esse tal vírus¿ Tem coisa errada por ai, sempre eles tem que achar um culpado. Já foi a vaca-louca, a galinha-louca e agora o morcego¿ Por que os tais humanos só culpam os animais ou a natureza em geral e eles nunca fazem nada de errado. Só por ai já dá pra desconfiar.

Dona Andorinha, cansada de mais uma viagem pelo rio Marmelos senta no galho e pede a palavra:
-Eu que já viajei por toda a Transamazônica durante as queimadas e incêndios no ano de 2019, vi anciãos do Povo Tenharim chorar na nascente do rio Marmelos, ao ver tudo queimado até na beira do rio e nem um sinal de peixe graúdo por lá, só peixinhos...eles chorando cantaram reclamando dos homens que tocam fogo em tudo pra virar pasto pra boi... disseram que virá um tempo difícil pela frente, que não terão peixe pra festa tradicional deles, nem caça, porque viram tudo queimado por onde passaram...morreram as caças e também os ovos que iriam germinar novos peixinhos devido o fogo e o calor provocado por ele... Eu acho que os homens tão matando sua própria casa!

Dona Anta, também conhecida por Tapiíra, ainda mascando uns ramos diz:
-Eu vi cacique do Povo Mura do Itaparanã morrer de câncer...ele passou maior parte de sua vida lutando pela demarcação da terra de seu povo...os homens de poder parecem não ligar pro direito ao território comunitário, só defendem a propriedade privada deles...mas seu povo continua sua história e sua luta, cuja território foi demarcado com seu próprio corpo!

Seu Queixada, sobrevivente de um grupo que foi atacado por caçadores da beira do rio Juruena, chegou cansado e pediu logo a palavra:
-Eu vi os ditos humanos fazendo barreira de cimento no rio Aripuanã, no rio Madeira, no Teles Pires, no Tapajós e no Xingú e agora querem fazer também no Juruena, eles chamam de hidrelétricas. Eles querem gerar energia elétrica pra manter as cidades tudo acessas noite e dia...mas não se preocupam com os animais, nossos parentes, com os parentes deles que vivem nas margens destes rios. Eles só pensam em ganhar dinheiro. Querem transformar tudo em mercadoria, até a água do rio! E por onde eles já passaram, acabaram com os peixes, com muitos tipos de vida, com a floresta e até com os humanos que parecem ser menos humanos que eles!

Macaco Prego ao escutar esta história pulou de galho em galho e entrou na conversa:
-Eu vi com esses zóios que a terra a de comer que, tem um monte de barcaças navegando pelos rios da Amazônia...levam de tudo...alimentos para as populações que moram nas beiras dos rios, mas principalmente muita semente de uma tal de soja, que mesmo que caia no chão não germina, não nasce outro. Levam vários tipos de minérios valiosos. Mas vi também pessoas morrerem porque eles passam por cima dos motorzinhos pequenos dos ribeirinhos quando lhes atravessam na frente, ou os alagam pelos banzeiros forte provocados por estas barcaças...eles chamam isso de hidrovia, via por onde levam riquezas... mas vi que tem poucos barcos e apertados para levar os moradores das beiras desses rios...isso não tá certo!

Dona Arara Azul abre bem as asas e pede a palavra:
-Eu vi muita coisa nas minhas viagens pela imensa floresta amazônica. Vi muitos homens roubando filhotes de minhas parentas araras, papagaios, periquitos entre outros. Eu fui atrás para saber o que faziam com nossos filhotes e descobri que vendem para pessoas do Brasil e de fora. Eles levam nossos filhotes e trocam por muito dinheiro. Alguns de nossos filhotes vão servir pra estudo em laboratório e outros para servir de enfeite nas casas. Como podem dizer que são humanos senão respeitam nosso modo de viver livres!

Dona Onça Pintada, rosna de canto da boca, arrepiando os demais e vai logo falando:
-Eu vi esses tais humanos criarem leis e não cumprirem. Eles matam nossos parentes para tirar couro para vender a compradores que pagam caro e depois eles colocam palha dentro como se estivéssemos vivos. Tem até lugar onde nos expõem para que todos nos vejam empalhados, nos museus... as pessoas tiram fotos junto conosco e dizem que nós não existimos mais e que nós éramos ferozes e que comíamos humanos e por isso nos matavam. Eles não falam a verdade. Nós só atacávamos quem entrava em nosso território ameaçando nossos filhotes. Será que direito a legitima defesa é só pra eles e nós parte desta natureza não temos direito a vida¿

Bem-Te-Vi que ouviu cada um pediu novamente a palavra:
-Eu vi eles falando do tal do vírus que espalha rapidamente... mas, parece que só mata os tais humanos...Ufaaa! Pelo menos dessa ameaça estamos livres! Eu não fiquei alegre mesmo assim, porque eles falaram que este tal coronavírus mata principalmente os mais idosos. Não entendi direito o porquê. Mas, nem fui lá perguntar só de medo. Disseram que já matou muito na China, na Itália tá matando até nos tal dos Estados Unidos e que tá chegando no Brasil e já tem gente morrendo. Não escapa ninguém se as pessoas não se cuidar...

Gavião Real vendo a tristeza do Bem-Te-Vi com pose de rei abre as asas e diz:
-Eu não sei muito desse coronavírus ai... só sei que nada sei... mas sei que passando lá pelas bandas onde vivem os Yanomami, região que tem muita gente chamada de garimpeiro cavando o chão, escutei um ancião sabedor tradicional dizer ao redor de uma fogueira em noite de lua cheia: “o tal do homem branco tá bagunçando com a terra...tá virando o que é de baixo pra cima e de cima pra baixo...por isso tá parecendo tipos de doenças que ninguém conhece e matando todo mundo, os que bagunçam com a terra e nós os filhos da terra”... Só sei que foi assim.

Bem-Te-Vi retoma a palavra e continua:
-Eu tô preocupado com nossa vida na floresta amazônica...esse vírus pode até não nos afetar, mas vai matar até os humanos que são nossos aliados, que nos respeitam e que convivem com a gente. Já pensou se esta tal de pandemia chega numa aldeia ou numa vila na beira destes rios¿ A maioria nem sabe o que é atendimento de saúde, nem o que é vírus, não tem como chegar à cidade a tempo pra se tratar e pode ser que nem tenha lugar pra eles na cidade... Eu tenho uma proposta: vamos sair floresta a dentro, beira de rio, onde tiver um humano e vamos avisar pra eles não irem pra cidade e nem receber estranhos em suas casas, o que vocês acham¿

Todos concordam com a proposta e saem em debandada, cada um ao seu modo, avisar os povos da floresta e das águas que tem um vírus vindo ai, mas que se ficarem isolados poderão sobreviver.

Dona Arara ainda opina:
-Assim nós teremos eles como nossos aliados por muito tempo...

Iremar A. Ferreira (24\03\2020) em tempos de reclusão...